domingo, 20 de fevereiro de 2011

Apreciação e Análise Musical I

  

 

Keith Jarrett, Jack DeJohnette, Gary Peacock.
   
Introdução:

        Este texto tem como objetivo realizar uma análise crítica teórico-perceptiva da performance dos músicos Keith Jarrett (piano), Gary Peacock (contrabaixo) e Jack DeJohnette (bateria), na execução da música instrumental Prism, no Koseiniki Hall, na cidade de Tokyo (Japão), em 15 de fevereiro de 1985. O vídeo abaixo, é um recorte dos 7’49’’ finais da performance completa dos músicos já mencionados, executada nos locais e datas também citados acima.
 

Sobre os músicos:
                                                           
KEITH JARRETT

Nascido em Allentown em 8 de maio de 1945, é um compositor e pianista estadunidense. Suas técnicas de improvisação conjugam o jazz a outros gêneros e estilos, como a música erudita, o blues, o gospel e outros.
    Desde cedo mostrou-se um prodígio musical: aos três anos começou a ter lições de piano e já com sete realizou apresentações como solista, compôs peças para piano que posteriormente masterizava com bateria e sax soprano. Com dezessete anos tocou um concerto de duas horas e estudou com uma famosa professora de piano clássico chamada Nadia Boulanger, em Paris. Viveu um período como free lancer, e outro, participando do Jazz Messengers e do Charles Lloyd. Em 1969, Jarrett integrou no grupo de Miles Davis, tocando piano elétrico. Após esse período com Miles Davis, largou o piano elétrico e passou a gravar somente para o selo que existe até hoje chamado ECM.
Nos anos setenta, Jarrett foi líder de dois grupos: um quarteto americano com Paul Motian (bateria), Charles Haden (baixo) e Dewey Redman (sax), e um quarteto europeu constituído por Jan Garbarek (saxofone), Palle Danielsson (baixo) e Jon Christensen (percussão). Não somente, em 1972 iniciou a sua famosa série de concertos improvisados, da qual resultaram gravações populares como “Solo Concerts”, “Köln Concert” e “Sun Bear Concerts”.
Durante os anos oitenta, executou tanto o estilo clássico quanto o jazz, entretanto, já nos noventa, gravou exaustivamente a sua série “Standards Trio”, ao lado do baixista Gary Peacock e o baterista Jack DeJohnette.
Keith Jarrett, embora influenciado por Bill Evans, possui uma força criativa própria e de extrema importância e influência para o jazz.  

                                                             
GARY PEACOCK

Gary Peacock (nascido em Burley em 12 de Maio de 1935) é um versátil e talentoso contrabaixista americano de jazz. Uma das suas influências foi o saxofonista Albert Ayler, com quem teve a oportunidade de tocar e gravar nos anos 60. Sua música é maravilhosamente afetada também por seus estudos da música e filosofia oriental.
Desde os anos 80 tem feito suas contribuições contemporâneas com Keith Jarret`s Trio do qual Jack DeJohnette faz parte como baterista. Peacock continua também a experimentar suas colaborações com o pianista Paul Bley, com quem trabalha desde a década de 60.
Peacock começou a tocar ainda criança, estudando piano no início, e na adolescência, a bateria. Em 1952, ingressou na Westlake School of Music em Los Angeles, entretanto, seis meses depois a largou. Ele assumiu sua própria educação musical. Dois anos depois, entrou no exército, passando, então, a tocar com a banda militar de sua base, na Alemanha. Paralelamente, desempenhava um trabalho com seu próprio grupo. Quando o baixistista do grupo germânico saiu, Peacock pegou o instrumento e aprendeu por si, tornando-se a partir dali o baixista da banda. Ele disse numa entrevista publicada no Earshot Jazz website: “Once I started playind it, it felt somewhat natural and easy to understand and I got more and more involved with it (Uma vez que eu começei a tocar, eu senti um pouco natural e fácil de entender e eu fiquei mais e mais envolvido com isso).”
    Mesmo após ser liberado da função militar, Peacock permaneceu na Alemanha por breve período, se juntando ao quinteto do saxofonista Hans Koller. Mais tarde, naquele ano, retornou a Los Angeles onde começou a trabalhar com os saxofonistas Bud Shank e Art Pepper e o guitarrista Barney Kessel. Ele também viajou com Terry Gibbs, gravou seu primeiro álbum com a tecladista Clare Fischer e começou sua parceria de longa data com o pianista Paul Bley. Em 1962, mudou-se para Nova York onde continuou a trabalhar com Bley e foi introduzido para o influente vanguardista Albert Ayler. Ele disse na mesma entrevista: “ He was about music, really, really about music and about continual development with instrument, with technique, with all of that. So when he play it wasn`t just squawks and beeps and honks and that kind of thing. He was really, he was coming from a real place. It was authentic. It was him ( Ele era música, realmente, realmente música e o contínuo desenvolvimento com o instrumento, com ténica e com tudo isso. Então, quando ele toca não são somente batidas e sons. Isso era autêntico. Isso era ele)”.  Além de Ayler, Peacock apresentou-se com o pianista George Russel e saxofonista Archie Shepp, e então, ingressou no quarteto, integrando, com Bley, com o trompetista/cornetista Don Cherry e o percussionista Pete LaRoca.
    Durante esse período ele também se tornou parte do trio do pianista Bill Evans e gravou num segundo trio com Bley e Paul Motian (percussionista do trio de Evans). Também tocou por um breve período no quinteto de Miles Davis. Mais tarde naquele ano saiu em turnê pela Europa com Ayler, Cherry e Sunny Murray; apareceu em diversas apresentações de Ayler incluindo no Spiritual Unity que o estabeleceu como um dos mais talentosos contrabaixistas do Jazz de acordo com o New Grove Dictionary of Jazz. Em 1969 mudou-se para o Japão para estudar a filosofia e medicina oriental em visa de uma úlcera que o assolara.  Lá ele gravou com o saxofonista Sadao Watanbe, com o pianista Masabumi Kikuchi e com diversos músicos americanos que visitavam o país.
    Em 1972 retornou aos Estados Unidos e ingressou no programa de biologia da universidade de Washington, formando-se quatro anos depois. Após terminar seus estudos, ele retornou ao Japão com Bley e Barry Altschul e seu tour produziu o LP Japan Suite. Peacock começou a conquistar um nome, Down Beat magazine disse: “The reemergence of the unique voicings and intricate logic of bassist Gary Peacock has been on of the undeniable pleasures of the las few years (O ressurgimento de vozes únicas e a lógica intrigante do baixista Gary Peacock tem sido um dos inegáveis prazeres dos últimos anos)”. Em 1979, ele tornou-se professor na Cornish School of the Allied Arts e permaneceu até 1983. Durante esse tempo continuou a apresentar-se e gravar com Bley, Jarrett e DeJohnette. Em 1995, com o Bley e o trompetista Franz Kolgmann, foi lançado o album Annette estrelando as músicas da inovadora voaclista Annette Peacock, que tinha sido casada com ambos ele e Bley.
    As gravações de Peacock com Jarret e DeJohnette o levou a uma nova direção de volta para o jazz. Peacock diz:  "What is your intention? Are you just going to go out and play the songbook? Or are you going to, is your intent to go deeper and deeper and deeper into the music? Going deeper into the music doesn't have anything to do with whether it is a standard or whether it is free playing or whether it is swing. That doesn't ma ke any difference. (Qual é a sua intenção? Você apenas pretende sair e tocar o que está no songbook? Ou é seu intento ir fundo e mais fundo na música? Indo mais afundo na música não tem nada a ver quer com o estilo standard, música livre ou swing. Isso não faz diferença alguma)" Em 1999, Peacock e Bley reuniram-se com Motian, com quem haviam tocado nos anos 60 para gravar Not Two, Not One. O álbum foi recebido entusiasticamente pelas críticas e Peacock contou a Earshot Website, refletindo suas crenças influenciadas pelo Oriente, que ele não tem um plano para sua música e que viver no presente para ele é a chave. Essa atitude contagiou a filosofia do trio de Jarrett apesar da existência de 20 anos do grupo. “There`s a sense of every perfomance being the first time we`re playing together and teh last time we`re playing together her. Because we don`t know what will happen. Are we ever going to play again? (Existe uma sensação de que toda performance nossa é como se estivéssemos tocando pela primeira vez e como se fosse a última vez também. Por que não sabemos o que irá acontecer. Nós iremos alguma vez tocar novamente?)”, Peacock disse a Earshot.

 

   JACK DEJOHNETTE

Jack DeJohnette (nascido em Chicago em 9 de agosto de 1942) é um baterista americano de jazz, além de pianista e compositor. É considerado por muitos como o rei dos baterista, pois domina qualquer que seja o ritmo: free, mainstream, blues, funk ou pop.
    Iniciou seus estudos de música com piano clássico para aos 10 anos mudar para a bateria. Como Bacharel da American Conservatory of Music de Chicago, trabalhou em diversos estilos musicais, como com a AACM de Lester Bowie e Anthony Braxton até, em 1966, mudar-se para Nova York.  
    Participou do quarteto de Charles Lloyd por três anos junto com Keith Jarrett e Ron McClure. Durante esse período também gravou ou atuou com Coltrane, Bill Evans, Monk, Getz e Hubbard, entre outros. Fez parte da troupe de Miles Davis nas sessões de “Bitches Brew” em meados de 1969 e se juntou ao grupo de Miles no outono de 1970 durante um ano. Jack passou a gravar com seus próprios grupos para os selos Milestone, ECM, Impulse! e Blue Note. Um dos seus mais importante trabalhados foi e está sendo desenvolvido há mais de 10 anos no “Jarrett Standards Trio” junto com Gary Peacock. Outros trabalhos de renomada importância na obra de DeJohnette estão nos seus grupos “New Directions” e “Special Edition”.

Música: Prism - Análise teórico-perceptiva:

Trata-se de um trio básico instrumental - contrabaixo, bateria, e um instrumento solista, neste caso, o piano.
A tonalidade utilizada é a de Mi maior. A harmonia contém três acordes - E, C#m e A. São estes os acordes formados sobre o 1°, o 6° e o 4° graus da eclala natural de Mi Maior.
Os músicos interagem bastante no decorrer da performance. Ao prestar mais atenção é possível perceber algumas melodias cantadas de forma improvisada, em certos trechos, de uma forma quase infantil e lúdica, brincando com a música. Percebemos que esses “vocalizes” são de Jarrett, e achamos que brotam da emotividade vivida pelo músico em determinados trechos de seus improvisos. Ouvindo outras performances de Jarrett, notamos que é característica dele, realizar tais intervenções vocais
A melodia que mais se destaca fica a cargo do piano. O piano trabalha bastante, há muitos improvisos, e em alguns momentos, sentimos que o que parecia simples, atingem um elevado grau de complexidade. Concordamos que tal nível de profundidade ocorre pela capacidade musical de Keith Jarrett.
A melodia, em tonalidade maior, é bastante empolgante e alegre. Transmite uma sensação de leveza. Remete a um parque onde crianças brincam livremente.
O compasso é quaternário (4 por 4). Quanto à base rítmica, há, dentro de um compasso: semínima, semínima, semínima, colcheia e colcheia acentuada e ligada ao primeiro tempo do próximo compasso. Segue essa descrição até a próxima ligadura, e assim sucessivamente. Dessa maneira, firma-se um padrão rítmico de base. Esse padrão é sincopado, e caracteriza a levada da música. Esta síncope verifica-se nos graves com sustentação de som (mão esquerda do piano e contrabaixo). Reservadas algumas variações existentes no decorrer da música, num geral, é isso aí.
A bateria executa a célula rítmica citada acima, onde o chimbau é tocado fechado em semínimas, sozinho no tempo 1, e junto com o bumbo, nos tempos 2, 3 e 4, e é aberto na última colcheia de cada compasso (aquela que contém o acento e a ligadura), quando o músico, simultaneamente, toca o bumbo e a caixa.
O baixo faz uma linha muito simples, utilizando poucas notas. Essas notas são basicamente as fundamentais da harmonia. Há também um pedal sendo realizado na nota Mi. Salienta-se, no entanto, a emotividade de Peacock e o sentido musical dado por ele a cada nota.
Existe um padrão melódico, rítmico e harmônico, que se repete ao longo de toda a composição, porém, com certas variações nos arranjos.
A dinâmica dos músicos é um aspecto importante a ser comentado. A música cresce em certo momento e noutro quase some para posteriormente reaparecer. Num geral,  mantém-se numa linha menos explosiva e mais viajante.
A composição vai sendo finalizada num fade-out até diluir-se por completo.

*Uma produção em conjunto da turma - Oficina de Criação Musical, 2010/2011.
Integrantes: Wagner Rodrigues, Flávia Matias, Francisco Pisseti e Luis Carlos.
Orientador: Diego Costa. 

Referências:

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Percepção e Linguagem Musical

Trecho do texto de introdução da Apostila de Composição-Arranjo do Maestro Tasso Bangel.

"A música é um bem público, ouvido e apreciado pelo povo, e utilizada por quem livremente desejar utilizar. A música, como a língua, utiliza signos e regras gramaticais, pois desde que se atribua valor para determinado signo ou sinal, existe uma linguagem. A música, assim como a fala, poderá ser ouvida e escrita. A criança "deduz" regras que usa para construir o seu cantar, sem se preocupar com estilo ou forma, somente cria seu canto nos moldes do que ouviu, com sequencias similares às ouvidas no seu meio-ambiente. Não existe uma língua ou música mais difícil que a outra, todas serão aprendidas pelas crianças, no mesmo tempo de vida, ou seja, por volta dos cinco anos, todas as crianças do mundo se comunicam falando e cantando as linguagens de suas pátrias. Primeiro a audição e o canto, depois a cultura dos signos, da gramática e da escrita musical. A criação musical poderá ser gramatical ou agamatical, as regras fazem parte do acervo sonoro do indivíduo, de sua competência. Na linguagem da música, cada signo tem um som e um efeito correspondente; na língua falada, são os fonemas que formam as palavras e significados. A língua usa um sistema gramatical com sujeitos, verbos, predicados, artigos, substantivos, adjetivos, etc. A música usa notas, escalas, tonalidades, melodias, harmonias, divisões rítmicas, etc. As normas gramaticais da música atingem todas as formas, gêneros e estilos, sejam eles folclóricos, religiosos, populares, clássicos, cantados ou instrumentais. A língua falada e escrita, e a música, são semelhantes em sua regência gramatical, no que se refere à construção de frases, períodos, perguntas e respostas, e discurso expositivo. Todo músico possui uma gramática que foi interiorizada desde a tenra idade e é um componente muito importante na formação da personalidade e identidade musical. A música é uma dádiva que nos foi dada e devemos buscar condições para que ela se desenvolva".

Referência:

BANGEL, Tasso. Apostila de Composição-Arranjo. Porto Alegre, 2011.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Como me Relaciono com Música

 Estou intimamente ligado à música. Escuto música em grande parte das minhas atividades cotidianas e toco meu instrumento diariamente.
Penso que a escolha do estilo musical que tenho vontade de ouvir ou tocar, aquela vontade de escutar as sugestões musicais que determinada sonoridade nos propõe, vem do estado de espírito em que me encontro. Quando me deixo guiar por esse sentimento, a música me esclarece pensamentos e me faz especial companhia.  
Quando estou trabalhando, minha audição musical é mais prática e direcionada para determinado fim específico. Como instrumentista, necessito estudar técnica, improvisação e o repertório que preciso executar.
Enquanto professor, me deparo com uma diversidade de outros universos sonoros, próprios da vivência musical dos meus alunos, com os quais não iria me envolver tanto se não fosse pela relação de ensinar alguém a executar tais músicas no seu instrumento. Com isso aprendo muito, pois além do contato com outros feitios musicais, estou sempre revisando os conteúdos técnicos e teóricos pertinentes às aulas de música que leciono.
Quanto ao meu processo criativo, normalmente parto de uma idéia (melódica, rítmica ou harmônica), registro-a, e a partir daí, vou desdobrando temas, e com isso, lapidando minha composição. Esse também é o sistema que adoto no desenvolvimento dos temas criados pelos alunos da OCM.
                                                                                                                                   Diego Costa.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Um Pouco Sobre a Minha Formação


Comecei a estudar música de forma regular e sistematizada aos quinze anos de idade (1995), desde então sigo na trilha musical. Durante parte desse tempo, cursei Licenciatura em Música na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Minha opção pelo curso de graduação na UFRGS foi com o intuito de ampliar meus conhecimentos em música, principalmente o relacionado às questões específicas musicais e ao aperfeiçoamento técnico instrumental. Por esta razão, primeiramente prestei prova pro bacharelado em violão. Passei pela primeira etapa (prova específica), mas graças à bendita matemática, neste ano (2002), rodei no vestibular. No ano seguinte, refiz as provas, porém, agora, optando pelo curso de licenciatura, numa decisão extremamente intuitiva que mal sei dizer... Nunca fiz coisa tão certa! Mesmo sem ter muita noção do que iria encontrar na grade curricular dessa habilitação, tinha a consciência de que me formaria professor de música. Iniciei assim meu contato com uma outra realidade na música – a do educador musical.
O que encontrei, foram autores da área, como Schafer, Paynter e Swanwick, Hans-Joachim Koellreutter, para citar alguns, propondo amplas e criativas formas de trabalhar música em sala de aula. O desenvolvimento de estudos sobre as vivências musicais trazidas pelos alunos para a aula de música, o ponto de partida da prática com atividades criativas como composição, para posteriormente adentrar o campo da teoria musical, são algumas idéias sugeridas por tais autores. Estas são abordagens educacionais que orientam-nos a refletir sobre em que estágio do aprendizado musical o aluno se encontra, levando este aluno a transcender e expandir seu conhecimento, explorando ao máximo o que ele já sabe e ensinando-o a refletir sobre as suas escolhas enquanto músico para que, futuramente, possa atuar no incremento da sua auto-formação. Neste sentido, a educação adquire aspectos verdadeiramente orgânicos, pois está conduzindo o indivíduo através de trilhos esclarecedores e fundamentados teoricamente, sobre os quais, a pessoa aprende para além dos conteúdos específicos de seu campo de estudo. São diálogos, ações, saber ouvir e falar (ou tocar), decisões interpretativas e composicionais, coerência e fluência no discurso, que vão aos poucos personalizando o som de cada pessoa. Dessa maneira o professor atua como gerenciador do aprendizado do aluno, conduzindo-o a desenvolver suas capacidades musicais na direção da meta que ele próprio deseja atingir.
Durante o período em que estive na universidade, minha relação com música de fato foi gradualmente se qualificando. Atribuo isto ao meu desenvolvimento intelectual oriundo das leituras e reflexões que somos instigados a realizar no curso em que me matriculei. O fato de estudar os autores da área da educação musical, que na realidade são grandes pensadores dos processos sobre os quais se constroem as relações de ensino/aprendizagem e os rumos mais abrangentes e criativos que pode percorrer o trabalho do educador musical, desde as salas de aula de musicalização até as políticas educacionais governamentais voltadas para o desenvolvimento e institucionalização da educação musical, me atribui mais sentido ao estar fazendo, ouvindo, compondo e ensinando música.
As relações que agora faço entre o que é uma pessoa, como e onde vive, com que mais se afina, que roupas veste, etc... e a música que ouve, cada vez mais me convence de que fazer música não é apenas aprender a ler partitura e a interpretar um repertório canônico no seu instrumento, mas sim uma atividade bem mais ampla e viva do que isto.
No período de estágio da graduação, desenvolvi e pus em prática minhas idéias sobre  o ensino musical. Sob orientação da Profa. Dra. Luciana Marta Del Ben, escrevi o trabalho intitulado “O desenvolvimento composicional de adolescentes na prática musical em conjunto”. Este, já estava sendo conduzido no formato de ensino que posteriormente denominei Oficina de Criação Musical. Trabalhei na EMEF Heitor Villa-Lobos, com um conjunto de violões formado especialmente para este estágio. Acho que tive sorte, pois me vi atuando numa escola do município de Porto Alegre que é mantenedora de uma Orquestra de Flautas, e onde já é tradição o ensino da música. tradiç o ensino de mautas e i atuando numa escola do munic  Foi uma experiência muito rica!

Diego Costa.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Meu interesse pelo tema

     Meu interesse pela composição e criação de arranjos musicais vem desde a época em que tive meus primeiros contatos com os festivais de música nativa do Rio Grande do Sul. Esse interesse ocorreu porque, observando esses festivais, tive a oportunidade de conhecer alguns compositores populares e, em função de os grupos musicais envolvidos no evento realizarem ensaios recorrentes entre a primeira e a segunda noite eliminatórias, pude acompanhar finalizações de arranjos das músicas concorrentes. 
     Esse contato se deu porque, em São Francisco de Paula, cidade onde nasci, anualmente é organizado o Ronco do Bugio, festival de música nativa cujo ritmo característico é o Bugio1. Durante os três dias de festival, algumas famílias da comunidade costumam oferecer suas residências aos músicos para pouso e banho. Minha família de ambos os lados, materno e paterno, mantinha tal hospitalidade. Nesse costume familiar de hospedar os músicos, meu pai, Airton Costa, teve grande influência. Há um bom tempo ele já vinha acompanhando como ouvinte os festivais de música nativista que mais lhe chamavam atenção. Esse convívio com o meio o incentivou a escrever letras para canções e, em parceria com o compositor riograndino Marco Araujo, participou como concorrente de alguns festivais gaúchos, entre eles, o Ronco do Bugio. Havia na minha família também um forte apreço às obras de Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, entre outros compositores da chamada MPB. Lembro que ouvíamos muita música em casa. Porém, o bugio era uma realidade, estava vivo, e eu podia ver e conviver de perto com o processo de construção de uma música, desde o ensaio até sua premiação no festival. Nesse contexto cultural então fui criado.
     Comecei a tocar, de fato, aos treze anos de idade, período em que meu avô paterno, músico de seresta que tocava clarinete e violão, e figura singular na minha educação, ensinou-me algumas músicas no violão. Desde então, comecei a me envolver mais diretamente com a execução instrumental e, consequentemente, com a elaboração informal de pequenos arranjos musicais. Esses arranjos resumiam-se a construir estruturas musicais com base em músicas já conhecidas minhas, sobre as quais eu organizava as notas da canção no braço do instrumento, de forma que a melodia ficasse em destaque, na maioria das vezes como notas mais agudas, fazendo as pontas dos acordes, e que os espaços fossem preenchidos com outras notas da harmonia, no ritmo original em que a música foi composta. Nessa época, aprendi a leitura de cifras através de revistas que ensinam a tocar violão e pelo contato com os músicos que por vezes frequentavam a nossa casa. Nesse período, comecei a estudar como autodidata um pouco de notação musical tradicional. Depois, senti necessidade de estudar violão com um professor. Procurei, então, uma escola de música, pois queria estudar violão clássico. Sem saber muito sobre o que se tratava esse tipo de estudo, tinha apenas a noção de que eu iria aprender a solar músicas e a ler partituras. Estudei violão com o Montenegrino Daltro Keenan Junior, na extinta Escola de Música SONARTE, em Novo Hamburgo, cidade onde eu morava.  Essa foi uma fase muito significativa para o meu crescimento como instrumentista, onde conheci a escola de Abel Carlevaro e desenvolvi consideravelmente a minha técnica violonística. Também sob orientação do professor Daltro, dentre outros, concluí o Curso Básico de Educação Musical da FUNDARTE, atual UERGS, em Montenegro/RS.
     Mais tarde, consegui um emprego como acompanhador de coros no Projeto Meninas Cantoras do Rio Grande do Sul. Neste projeto - uma idealização do regente Daniel Valadares - trabalhei durante seis anos. Esses coros eram vinculados a colégios privados ou a fundações culturais das cidades onde existem. Havia coros em Bom Princípio, Nova Petrópolis, Campo Bom e Novo Hamburgo. Nesses coros eu realizava o acompanhamento harmônico e as transcrições das músicas que queríamos ensaiar e não tínhamos a partitura. Nessas transcrições, eu muitas vezes adaptava as tonalidades para se ajustarem melhor à tessitura vocal das vozes claras. Numa espécie de arranjo, cheguei a criar outras vozes para serem cantadas no conjunto, mas eram basicamente notas da harmonia com alguma divisão rítmica. Nada que eu já não tivesse praticado no violão. Também não eram raras as vezes em que fazíamos esse trabalho em conjunto, eu, o regente e as cantoras, criando assim um arranjo coletivo que ficava como autoria do grupo com o qual estávamos trabalhando. Nos horários em que os coros faziam seus aquecimentos, técnica vocal e ensaio de naipes, eu oferecia aulas de violão para os interessados da comunidade. Por meio desse projeto, tive a oportunidade de realizar algumas viagens nacionais e internacionais, de me familiarizar com o palco e de adquirir um pouco de experiência como professor de instrumento e teoria musical. Porém, meu interesse maior sempre foi pela criação musical. Minha ideia era mesmo a de montar uma banda ou participar de trabalhos autorais de compositores locais, atividade essa que realizo com maior frequência atualmente. Hoje, toco com orquestra de sopros, sob a regência do Maestro Garoto, integro um conjunto de música de câmara autoral, sob orientação do Maestro Tasso Bangel, defendo músicas de diversos compositores em festivais populares como instrumentista, produzo arranjos e leciono violão.
     Por conta de ter trilhado esse caminho prático/criativo/musical, penso hoje que é na criação musical que o músico obtém um entendimento mais completo do material sonoro sobre o qual está trabalhando. Sustentando tal entendimento, transporto esse modo de me relacionar com música às aulas de instrumento que leciono. Swanwick e França (2002) afirmam que “a composição musical assume uma forte natureza assimilativa, pois envolve um extenso jogo imaginativo e permite mais liberdade do que outras formas de expressão musical”. Para os autores, “a composição é um processo essencial da música devido à sua própria natureza: qualquer que seja o nível de complexidade, estilo ou contexto, é o processo pelo qual toda e qualquer música é gerada” (SWANWICK e FRANÇA, 2002, p. 8).
    Minha ideia de trabalhar com a criação musical é no sentido de inseri-la no processo de desenvolvimento musical do aluno, como um fio condutor que perpassa o crescimento técnico e reflexivo do estudante, conjugada com a execução de um repertório simpático ao indivíduo. Penso que estudar música seja a união da capacidade de pensar/manipular música – entendendo sobre harmonia, fraseado, dinâmica, ritmo, enfim, todo o conteúdo que existe em qualquer produto musical, e que abrange diversos níveis de complexidade conforme a profundidade com a qual o compositor se utiliza desses recursos, com a capacidade de execução instrumental do educando. O papel da performance instrumental é de promover uma vivência musical criativa, expressiva, relevante e musicalmente significativa, através de um repertório apropriado e tecnicamente acessível, que favoreça o desenvolvimento da compreensão musical dos alunos (FRANÇA, 1998; REIMER, 1989, apud FRANÇA e PINTO, 2005, p. 30). Ao compor, os alunos têm a oportunidade de colocar sua técnica não simplesmente mecanicamente, mas musicalmente, ou seja, para realizar sua concepção musical. A adequação do repertório ao aluno envolve também um aspecto afetivo, como preferência e gosto pessoais em relação a nuanças de expressividade e estilo. Ao tocar suas criações, o estudante está tocando o que é apropriado para seus dedos e mãos, e expressando seu próprio fluxo de ideias, com seus significados, formas, caráter e personalidade (FRANÇA e PINTO, 2005, p. 30).
     Como não poderia deixar de ser, minha experiência de prática musical em conjunto marca com um importante traço o meu modo de ensinar. No entanto, o trabalho com um grupo de alunos adquire outras particularidades. No conjunto, para poder interagir musicalmente e de forma construtiva, se faz necessário que o estudante esteja constantemente atento aos sons que seus colegas estão produzindo, para que possa expressar suas ideias com a finalidade de criar uma unidade musical no conjunto. Para o professor, o foco deixa, então, de ser o aluno e passa a ser o grupo. Nesse caso, o grupo assume uma característica única e funciona como organismo vivo e independente. Isso acontece devido às impressões pessoais que cada indivíduo põe na música que está sendo composta e executada pelo grupo. Assim como na sociedade, no grupo musical o individuo cumpre sua função com obrigações, deveres e direitos. A prática musical estabelecida no conjunto de atividades de composição, abrangendo a apresentação e a crítica dos trabalhos, pode ser entendida como um recurso de coerência na comunidade, que engloba engajamento mútuo, empreendimento conjunto e repertório compartilhado (WENGER, 2008 apud BEINEKE, 2009, p. 244).

1 Primata das matas do Rio Grande do Sul, o bugio, como é conhecido, dá nome a um gênero musical e a uma dança com características particulares.


Diego Costa.

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